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Digital · 3 min de leitura

Internet, redes sociais e outras drogas

Publicado na coluna de Daniel Maia no jornal O POVOLer no O POVO ↗
Digital · Daniel Maia

Há cinco anos defendi em minha tese de Doutorado intitulada Redes Sociais e Liberdade de Expressão que tais redes sociais da internet eram como instrumentos, os quais podem ser utilizados tanto para o bem, quanto para o mal, como se fossem um bisturi que pode cortar uma pessoa para salvá-la em uma cirurgia ou para matá-la em um homicídio.

Mas confesso que tenho amadurecido o meu pensamento sobre o conceito das redes sociais e percebido que ultimamente tais instrumentos parecem estar adquirindo, por meio da inteligência artificial que os comandam, uma espécie de vontade própria, autonomia e até mesmo um certo grau de domínio em relação aos seus usuários.

Nesse ponto, abro um aparte para destacar o que é dito no documentário O dilema das redes, produzido pela Netflix, que os dois únicos mercados que chamam seus consumidores de usuários são as redes sociais e o mercado de tráfico de drogas. Seria até engraçada essa comparação, se não fosse um tanto quanto assustadora.

Os algoritmos que compõem as inteligências artificias das redes sociais que usamos são capazes de em poucas horas ou cliques identificar os nossos gostos e afinidades, o que desperta os nossos desejos e vontades, o que nos assusta e o que tememos, nossas preferências e antipatias, tudo sobre nós e a partir daí nos bombardear com propagandas dos mais diversos produtos e serviços, influenciando nossas tomadas de decisão e nos fazendo crer que somos donos da verdade, uma vez que acabamos vendo na tela de nossos aparelhos apenas aquilo que temos uma tendência a gostar e, assim, não entendemos como as outras pessoas não concordam conosco.

Até aí nada de mais, nossa vida até ficou mais fácil e divertida. O problema é que junto com essa conectividade toda, vem um vício causado pelas altas e imediatas doses de satisfação que o engajamento em nossas publicações nos causa.

A cada like ou comentário positivo que recebemos em nossas postagens experimentamos uma dose de dopamina que nos embriaga de prazer, uma sensação boa que nos vicia e nos leva a querer uma dose maior com a próxima postagem, fazendo com que realmente nos viciemos naquela rede social que está nos possibilitando aquela alegria vazia, mas imediata.

De outro lado, a chamada “geração Z”, pessoas nascidas após 1996, as quais não conheceram um mundo sem internet, não parecem estar preparadas para o outro lado desse vício, qual seja: a crítica de milhões de desconhecidos.

Assim, se uma postagem que tenha muitas “curtidas”, likes e comentários positivos pode nos causar uma sensação de satisfação, de outra parte também é verdade que uma postagem que receba críticas ou qualquer tipo de comentários pejorativos podem levar os usuários a mais profunda depressão, o que tem, certamente, sido uma das causas do aumento de suicídios entre jovens.

Isso é muito preocupante!

De toda forma, continuo acreditando na capacidade humana e no conceito de que tais redes sociais são instrumentos, os quais podem ser utilizados para o avanço e bem-estar da humanidade. Entretanto, é necessário que os Estados, por meio de seus ordenamentos jurídicos, regulem a operação das plataformas dessas redes sociais, de modo a obrigá-las a se preocuparem em primeiro lugar com o bem-estar de seus usuários e não apenas com o lucro de seus patrocinadores.

É triste notar que esse tema não esteja na pauta da maioria ou quase todos os candidatos das próximas eleições, o que mostra, de fato, o quanto alienado estamos.

Daniel Maia
Sobre o autor
Daniel Maia

Advogado, fundador do Daniel Maia Advocacia, Professor Pós-Doutor de Direito Penal da UFC e colunista do O POVO.

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