Artigo de opinião publicado originalmente em 2017. As referências a leis e números refletem o contexto da época.
Todos sabem que o Ceará está dominado - a palavra é essa mesmo: dominado pelas facções que controlam o tráfico de drogas e impõem o terror aos cearenses e aos corajosos turistas que se arriscam vindo visitar o nosso lindo, porém perigoso, paraíso.
O interior do Estado, com algumas cidades que sequer possuem uma Delegacia de Polícia - Pasmem: tem cidade no Ceará que não tem um só policial civil! - é o espaço ideal para a expansão do comércio de drogas e com ele os mais diversos tipos de crimes.
Já Fortaleza, está sitiada pelos criminosos que obrigam cada um de nós a nos ilharmos em condomínios, carros blindados, muros altos e, para a diversão e compras, shoppings centers. Assim, quem pode tenta se proteger com a ilusão de que a violência não atingirá as classes sociais que tem acesso a tais ambientes. Ledo engano!
Somente nessa última semana as redes sociais e a imprensa noticiaram uma violenta ação de traficantes em uma das festas mais badaladas da capital, no fim de tarde do domingo; no mesmo dia, houve uma invasão violenta por assaltantes ao melhor restaurante do Ceará, os quais fortemente armados ameaçaram e roubaram todos que lá estavam; no dia seguinte, ocorreu uma verdadeira guerra entre gangues em uma das praças mais bem localizadas da zona nobre da cidade; e para finalizar, no outro dia, um houve assalto a uma loja de sapatos no centro da cidade em que uma pessoa ficou refém por horas, sob a mira dos bandidos.
Todos esses fatos ocorreram apenas nas primeiras 48 horas iniciais da semana e a única, salvo engano, manifestação oficial das autoridades de segurança foi desastrosa: ignorou a realidade, minimizando a gravidade dos fatos, confundiu o endereço de uma das ocorrências acima narradas, tendo apenas conseguido mostrar que do jeito que está, Fortaleza tem tudo para chegar em primeiro lugar no ranking das cidades mais violentas do mundo - já está em sétimo! Um verdadeiro absurdo com a nossa linda capital e com o nosso povo já tão sofrido! O que mais precisa acontecer para o Estado se postar como deve, combatendo eficazmente a violência?
Os governantes tem que acordar e perceber que segurança pública não pode ser tratada como política de governo, mas sim de Estado. Precisa de ações continuadas e de maciços investimentos em programas sociais direcionados à educação, à arte, à cultura e ao esporte, para, assim, evitar que os jovens sejam atraídos para o tentador caminho do dinheiro fácil das organizações criminosas. Entretanto, o que se tem visto no momento é o contrário, o Estado não tem sequer conseguido garantir a segurança de Professores da rede estadual de ensino, os quais em diversas escolas somente podem trabalhar nos dias e horários que as facções permitem. Isso é inadmissível, beira à barbarie!
Nenhum país democrático do Ocidente possui níveis de violência urbana tão altos como no Brasil, sendo Fortaleza, nesse contexto, um triste referencial. E o pior: não temos perspectivas de melhora. A Polícia, especialmente a Civil, sem estrutura mínima de trabalho; os presídios abarrotados de pessoas que naquelas condições obviamente sairão piores do que entraram; e a ausência, quase que total de programas sociais voltados para o jovem, são ingredientes que ajudam a fomentar a gravidade da situação.
De outro lado, a Polícia ostensiva, o Judiciário e o próprio Direito Penal são apenas a ponta da espada no combate à criminalidade e não solucionarão o problema sendo utilizados de maneira isolada e pontual como se tem feito no Ceará. Enquanto não se admitir isso, não apenas Fortaleza sofrerá, mas cada um de nós individualmente estaremos permanentemente sitiados em nossas ilhas de medo.
